| Unimontes
Científica V.5 n.2 - Julho/Dezembro de 2003 |
| ISSN
1519-2571
versão impressa |
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| Música e cultura: a comunicação na performance musical do congado de Montes Claros - MG Music and culture: the communication in the musical performance of congado from Montes Claros - MG |
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| Luis
Ricardo Silva Queiroz * |
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Resumo |
| Este artigo analisa as relações entre música e cultura,
tendo como foco os processos de comunicação na performance musical do
Congado – Catopês, Marujos e Caboclinhos – de Montes Claros-MG. Objetiva
discutir de que forma a musica, no ritual congadeiro, tem atuado como
veículo de comunicação e como isso tem se estabelecido a partir do diálogo
entre essa manifestação cultural e a sociedade. Tomando como base uma
pesquisa bibliográfica e dados empíricos coletados junto aos grupos de
Congado de Montes Claros, pode-se concluir que a música atua como um meio
de comunicações múltiplas, que mantém a sua função dentro do Congado,
configurando-se como um veículo condutor dos costumes e da tradição congadeira
frente a sociedade como um todo. |
| Palavras-chave: Música, cultura, comunicação |
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| Abstract |
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| Key
words: Music, culture, communication |
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| Compreender o que seria cultura
tem sido, nos últimos dois séculos, um dos principais anseios dos antropólogos.
Segundo estudiosos, que vêm se dedicando à análise e compreensão desse
assunto, a busca de uma definição do termo cultura vem desde Tylor (1832-1917),
que a caracterizou como um todo complexo que inclui conhecimentos, crenças,
artes, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade e hábitos
adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade (Langness, 1987;
Laraya, 2002; Mello, 2001). O conceito de cultura tem sofrido ao longo
do tempo diversas conotações, adaptadas às distintas correntes antropológicas
que foram se constituindo no decorrer da história. Se pensarmos numa definição
mínima de cultura como conceitos e comportamentos apreendidos e se a
entendermos como um grande código, comum a um determinado grupo e/ou
contexto, podemos afirmar que ela é o fator determinante para a concretização
de todo processo que envolva relações sociais. Nesta perspectiva, tratamos
nesse estudo de um dos aspectos comuns a todo e qualquer contexto cultural
— a música — buscando entender como ela se configura no processo de
comunicação dentro de um determinado grupo social. Para Vanoye (1998), toda
comunicação tem por objetivo a transmissão de uma mensagem. Para o autor,
a mensagem, que é o objeto da comunicação, é constituída pelo conteúdo
das informações transmitidas. Assim, para que uma mensagem possa ser
transmitida e, conseqüentemente, haja comunicação, é necessário que
ocorra um entendimento dos códigos utilizados nesse processo. Segundo
Vanoye, “o código é um conjunto de signos e regras de combinação destes
signos” (Vanoye, 1998, p. 3). Um dos aspectos essenciais
na caracterização de uma cultura são as suas formas de transmissão.
Os processos de aprendizagem — determinados por cada sistema cultural
— são responsáveis diretos para a efetivação dos códigos comuns, estabelecidos
pela cultura, que se constituem a partir dos comportamentos e conceitos
aprendidos e concretizados pelo homem. Nesse sentido, concordamos com
a definição de Gerttz (1989), quando concebe cultura como um conceito
“essencialmente semiótico”, acreditando que o “homem é um animal amarrado
a uma teia de significados que ele mesmo teceu” – a cultura. Significados
esses, constituídos a partir das interações sociais (Gerttz, 1989, p.
15). Podemos, nessa mesma perspectiva, entender cultura como as escolhas
feitas pelos humanos a partir dos significados que eles próprios estabelecem,
com base em sua aprendizagem, ao lidarem com a natureza, com o meio
social e consigo mesmo. A música, pensada em relação
à cultura, pode ser considerada como um veículo universal de comunicação,
no sentido de que não se tem notícia de nenhum grupo cultural que não
utilize a música como meio de expressão e comunicação (Nettl, 1983).
É importante notar que, com essa afirmação, não estamos concebendo a
música como uma “linguagem universal”, tendo em vista que cada cultura
tem formas particulares de elaborar, transmitir e compreender a sua
própria música, (des) organizando os códigos que a constituem. Dessa
forma, não nos é possível compreender universalmente todas as músicas
do mundo, por ser a linguagem musical de cada cultura adequada ao seu
sistema singular de códigos. Não temos aqui a intenção
de discutir a música como linguagem, mas, sim, como um veículo de comunicação.
Interessa-nos, nesta perspectiva, a idéia de que, embora numa concepção
etnomusicológica, não entendamos a música como uma “linguagem universal”,
e sim como um caminho universalmente utilizado em todo contexto social.
Neste estudo, analisaremos
as relações entre cultura e música, focalizando especificamente os processos
de comunicação na performance musical do Congado. Nosso objetivo é,
essencialmente, discutir de que forma a música congadeira, na contemporaneidade,
atua como veículo de comunicação e como isto tem se estabelecido a partir
do diálogo entre essa manifestação cultural e a sociedade como um todo.
Tomamos como base para nossas reflexões, além de uma pesquisa bibliográfica
direcionada para esse tema, dados empíricos coletados junto aos grupos
de Congado – Catopês, Marujos e Caboclinhos – de Montes Claros.1 O congado em Minas Gerais
O Congado, uma das mais fortes
e importantes manifestações da cultura afro-brasileira em Minas Gerais,
mescla tradições africanas com elementos de bailados e representações
populares luso-espanholas e indígenas. Essa manifestação é caracterizada, na sua
performance, por danças dramáticas ou folguedos acompanhados de expressões
musicais, ricas em variações sonoras, ritmos e melodias, que apresentam
particularidades de acordo com o grupo e a região (Queiroz: 2002, 130).
O ritual congadeiro, em Minas
Gerais, acontece durante os festejos de Nossa Senhora do Rosário, São
Benedito e Divino Espírito Santo. A época de realização do ritual varia
de acordo com o calendário de cada região do Estado, acontecendo mais
constantemente nos meses de agosto e outubro. Essa festa de devoção — ritual
sagrado — segundo Lucas (2000), pode ser identificada como uma expressão
da religiosidade negra que sobreviveu ao processo de imposição cultural,
presente no sistema escravista brasileiro, através da reinterpretação
e reelaboração de valores alheios à concepção de mundo dos negros. Para
Brandão (1976; 1985), o Congado combina simbolicamente a memória de
acontecimentos e costumes “tribais” com valores da devoção católica
aprendidos na catequese. Em concordância com Martins
(1997), percebemos que a transmigração de escravos africanos para as
Américas, e especificamente para o Brasil, não apagou, nos povos de
origem africana, os signos culturais, textuais e toda a complexidade
simbólica que traziam em sua cultura. Assim, o Congado surge da permanência
de aspectos característicos de rituais religiosos africanos, adaptados
ao culto do Deus e dos santos da religião católica predominante no Brasil
na época em que aqui chegaram os negros trazidos da África. De acordo com estudiosos
como Souza (2002), os registros do Congado no Brasil datam do século
XVII. Já segundo Arroyo (2000), essa prática “afro-católica” foi constatada
no país a partir do século XVIII, sendo dessa mesma época sua origem
em Minas Gerais. No entanto, mesmo que possíveis datas de origem dessa
manifestação já tenham sido apontadas em grande parte dos estudos relacionados
ao Congado, não nos parece possível, com base em nossas constatações,
poder afirmar uma data precisa, sendo esse aspecto merecedor de um estudo
mais aprofundado. O Congado em Minas Gerais
possui sete subdivisões, chamadas “guardas” ou “ternos” — termos que
variam de acordo com a região onde acontece o festejo. São eles: o Candombe,
o Congo, o Moçambique, o Vilão, os Catopês, os Marujos, e os Caboclinhos.
Nesse trabalho, optamos pelo termo “guarda”, em concordância com Lucas
(2000) e Martins (1988), para denominar cada um desses grupos estabelecidos
pelas sete divisões do Congado. Mesmo que os termos “guarda”
e “terno” sejam utilizados muitas vezes como sinônimos — podemos citar
como exemplo Ribeiro (1981) —, nesse trabalho faremos uso desses conceitos
com sentidos distintos. Enquanto “guarda” se refere aos sete grupos
do Congado, “terno” 2 designa a subdivisão dessas guardas.
Assim, nós temos, por exemplo, dentro da guarda de Catopês vários ternos
com características similares que identificam essa guarda, mas com particularidades
específicas de cada um deles. Nesse sentido, no Congado, utilizaremos
terno como sinônimo de grupo, tomando como base a própria definição
dos participantes dos Catopês de Montes Claros. Dos diversos elementos que
compõem o Congado, a música ocupa importante papel, ela dá movimento
e forma ao ritual, promovendo o contato do mundo físico com o mundo
sagrado. Nessa perspectiva, parece-nos claro o fato de que a música
tem um significado extra-mundano, que a desloca de um elemento trivial
do mundo social, transformando-a em um símbolo que, no contexto do Congado,
permite engendrar um momento especial e extraordinário, o contato com
o mundo sagrado, com os santos que dão sentido e significado ao ritual
(Queiroz, 2003). Nesta concepção, a música
do Congado não pode ser entendida se, separada do seu caráter religioso,
for analisada somente do ponto de vista estético, desvinculada dos demais
valores simbólicos que, nesse contexto, lhes são atribuídos. Nesta visão,
concordamos com Mantle Hood, quando afirma que um “estudo significativo
de música, dança, ou teatro não pode ser isolado de seu contexto sócio-cultural
e da escala de valores nele incluída” 3 (Hood, 1971, p. 10).
Com efeito, para haver uma compreensão significativa da música no Congado,
é necessário buscar um entendimento dos distintos, mas inter-relacionados
processos que a constituem dentro do ritual, tendo, assim, uma visão
holística desse fenômeno. Marujos, caboclinhos e
catopês: celebrando o congado em Montes Claros Montes Claros possui grande
diversidade de manifestações culturais que têm a música como um dos
principais meios de expressão. Nesta cidade, encontramos as Folias de
Reis, que têm atualmente trinta grupos registrados4, o que
representa um número significativo para um município que possui cerca
de 320.000 habitantes. Outra importante manifestação musical dessa cidade
são os grupos de Seresta. Atualmente, a cidade possui cerca de dez grupos,
sendo que alguns deles chegaram a alcançar projeção nacional — como
a Seresta João Chaves, com mais de 30 anos de existência — ganhando
concursos e participando de diversos festivais até a década de 1980.
Montes Claros possui ainda artistas locais que obtiveram fama pela sua
música tipicamente regional, podendo ser mencionados, entre outros,
os violeiros Zé Côco do Riachão – que chegou a ser apelidado de Beethovem
do sertão – e Tião Carreiro, e os compositores Godofredo Guedes
5 e João Chaves – que compuseram principalmente
modinhas, toadas, marchas e choros. Dentre essas diversas e significativas
manifestações, destacam-se nesta cidade os grupos de Congado que, entre
os meses de maio e agosto, desfilam pelas ruas visitando casas e igrejas,
devotando sua fé e suas crenças no poder divino. Em Montes Claros, o
Congado é constituído por três guardas: Catopês, Marujos e Caboclinhos.
Guardas que, atualmente, se subdividem em três ternos de Catopês, dois
ternos de Marujos e um terno de Caboclos. Os Marujos usam vestimentas
com as cores azul e vermelho – o azul representando os cristãos e o
vermelho representando os mouros. O capitão do terno vem à frente, com
sua espada, conduzindo o cortejo; os Marujos trazem expressa, em sua
arte, a fusão de várias tradições portuguesas, encenando grandes feitos
náuticos e a vitória do catolicismo sobre os muçulmanos. Na sua música,
a alegria e a tristeza sempre estão lado a lado, dividindo os versos,
acompanhados por pandeiros, comuns às guardas de Congado de Montes Claros,
e por cavaquinhos, violões e violas de 12 cordas. Os Caboclinhos retratam a
figura do índio brasileiro, associado à Confraria de Nossa Senhora do
Rosário. Seus trajes simbolizam as vestimentas indígenas, com enfeites
de penas acopladas às roupas vermelhas. Os integrantes conduzem pequenos
arcos e flechas que completam a caracterização. As flechas, quando arremessadas,
não se livram, devido a um ressalto que as mantêm presas no arco e,
por entrechoque, funcionam como marcador rítmico ajudando a compor a
sonoridade do grupo. Seus instrumentos são pandeiros de pele de couro
– construídos artesanalmente –, violas e uma rabeca, tocada pelo mestre
Joaquim Poló. Os Catopês apresentam variações
em suas vestimentas, principalmente nas cores, que costumam estar relacionadas
àquelas predominantes na bandeira do santo de devoção do terno. Em
Montes Claros, os dois ternos de Nossa Senhora do Rosário utilizam
camisas e calças brancas, e o terno de São Benedito utiliza, predominantemente,
a cor rosa. Os integrantes dos três ternos usam na cabeça o que eles
chamam de “capacete”, adereço com fitas coloridas e/ou penas – variando
de acordo com o terno. Os Catopês usam somente instrumentos de percussão:
caixa, chama,6 tamborim,7 pandeiro e chocalho. Das manifestações encontradas
em Montes Claros, o Congado é uma das que têm apresentado, atualmente,
maior expressividade. Estes grupos, mesmo em menor número que as folias,
por exemplo, têm demonstrado grande respaldo junto à comunidade em geral,
à imprensa e às instituições, governamentais ou não, da região. Performance e transmissão musical no contexto congadeiro A música é uma forma de necessidade
biológica particular e sua performance é, portanto, “propriedade pública”
e idiossincrática (Dunsby, 2003). Nesse sentido, a performance musical
pertence a todos e não tem um padrão único estabelecido, assumindo distintos
significados de acordo com os códigos de cada cultura. Para Turner (1988:21), o
gênero performático “reflete” ou “expressa” o sistema social ou a configuração
cultural. Segundo o autor, a performance é, freqüentemente, uma crítica,
direta ou indireta, da vida social, em seu surgimento e evolução. Nessa
perspectiva, a performance no Congado traz em sua essência aspectos
que transcendem a atividade musical em si mesma, dando a essa sentidos
que a tornam particular e significativa, tanto na vida de seus praticantes
como no contexto sócio-cultural em que estes se inserem. Concordamos
com Turner, quando afirma que “[...] todo tipo de performance cultural,
incluindo ritual, cerimônia, carnaval, teatro e poesia é explanação
e explicação da vida em si mesma [...]” 8 (Turner, 1982:
13). Perceber e entender características
essenciais de uma performance musical, como a do Congado, possibilita
compreender não só a música desta manifestação em seus aspectos práticos
e estruturais, mas, sobretudo, o sentido e os significados desta na
constituição social e cultural deste contexto. “A performance é que
engendra as possibilidades de significância e a eficácia da linguagem
ritual [no Congado]” (Martins, 1997:147). A performance musical é um
modo de comportamento que reflete os significados do Congado, sendo,
sobretudo, uma passagem para a experiência do mundo congadeiro. (Turner,
1982; Messner, 1993). Segundo Nettl, “[...] uma
das coisas que determina o curso da história de uma cultura musical
é o método de transmissão” 9 (NETTL, 1997, p. 8). Ainda segundo
o autor, na maior parte das culturas, incluímos aí a cultura congadeira,
a música é transmitida de forma oral e aural. Nettl (1983) concebe o
conceito de “aural” como algo vinculado a uma percepção global do indivíduo
no que se refere à apreensão dos elementos transmitidos. De acordo com Merriam (1964)
e Nettl (1983), os processos de ensino e aprendizagem da música acontecem
de formas variadas, e são determinados pelo contexto em que se inserem,
“[...] cada cultura modela o processo de aprendizagem conforme os seus
próprios ideais e valores” 10 (Merriam, 1964:145). Assim,
os processos de transmissão musical vão assumir formas distintas dentro
de cada grupo, apresentando particularidades que vão caracterizar a
própria performance musical. Arroyo (1999) 11 traz
em seu estudo uma importante contribuição para o entendimento dos processos
de transmissão musical no Congado. A autora se utilizou de duas categorias
de captação e análise do ensino e aprendizagem da música: as situações
em que aconteciam, e os processos que envolviam. Assim, a partir de
suas análises, Arroyo deixa claro que a transmissão musical no Congado
assume distintos processos, que variam de acordo com a idade, a vivência
musical e demais características particulares a cada congadeiro. A situação de aprendizagem [no Congado] é
uma situação coletiva de performance. [...] Como em várias culturas
musicais, orais, a cultura musical congadeira é auditiva, visual e tátil
(Arroyo, 1999, p. 177). Nos grupos de Catopês, Marujos
e Caboclinhos, que constituem o Congado de Montes Claros, os processos
de ensino e aprendizagem variam de acordo com a guarda e o terno. Assim,
os Caboclos têm estratégias de transmissão diferenciadas dos Marujos
que, por sua vez, têm estratégias diferentes das dos Catopês. No entanto,
mesmo apresentando diferenças, os processos de transmissão musical no
Congado se assemelham em vários aspectos, sendo um dos mais evidentes
a aprendizagem a partir da experimentação. Os momentos de experimentação
acontecem de forma mais efetiva antes das saídas do terno.13
Enquanto os integrantes do grupo vão chegando, os “meninos” 14,
que na maioria das vezes chegam primeiro, experimentam e tocam os instrumentos
do Terno, principalmente aqueles considerados mais importantes, normalmente
tocados pelos adultos que estão há mais tempo no grupo. Assim, os meninos
aproveitam para tocar as caixas e os chamas, praticando para quando
tiverem uma oportunidade estarem preparados para tocá-los. Durante esse
processo de experimentação, que ocorre geralmente em grupos de quatro
ou cinco integrantes, eles se corrigem e competem entre si, buscando
mostrar quem sabe mais. Por várias vezes, enquanto aguardava a saída
do terno, meu instrumento – um chama – era solicitado pelos “meninos”,
para que pudessem tocá-lo. Nessas experiências, eles atuam como seus
próprios professores, e somente quando não chegam a um acordo sobre
a execução de um determinado ritmo, é que solicitam a alguém do grupo,
mais experiente, para dizer quem está “certo” e/ou demonstrar como se
toca. Um fator importante nesse
processo, que acredito ser um dos mais relevantes para a formação do
“tocador” no Congado, é a interferência do mestre e também dos integrantes
mais experientes. Muitas vezes, enquanto os meninos estão “brincando”
e, pensando que não estão sendo observados, batem algum ritmo errado,
são corrigidos e advertidos enfaticamente: “isto tá errado menino, num
é assim que bate não”. Interessante é que muitas vezes a correção não
vem acompanhada de uma explicação e o “tocador”, advertido de que está
errado, tem que se virar para aprender a forma correta de tocar. Outras
vezes, a explicação é feita por frases como: “bate sem parar a baqueta”,
“bate mais compassado” e etc. Pelo que pude observar, frases como estas,
utilizadas constantemente, não têm um sentido claro para os meninos,
e eles acabam aprendendo, de fato, pela imitação e repetição dos padrões
feitos pelos outros. Em suma, os processos de
transmissão musical no Congado se dão essencialmente de forma coletiva,
onde a aprendizagem é feita pela prática de tocar, experimentar, prestar
atenção na execução dos mais experientes e imitar a performance. Performance
que ensina, durante a sua prática, e que estabelece momentos de comunicação
musical interna e externa. Interna, relacionada ao fazer musical dentro
do grupo e a formação de valores constituídos para organização coletiva
como um todo, e externa, em relação ao diálogo com o público, constituído
pelos demais membros da sociedade, que assistem e contemplam a performance
congadeira e o que é transmitido por ela. Comunicação e música no
ritual Como já discutido na introdução
desse artigo, nosso intuito aqui é pensar a música como meio de comunicação,
entendendo-a como uma forma de linguagem particular, com códigos e significados
estabelecidos pelo sistema cultural do qual faz parte. Assim, pensamos
a linguagem musical dentro do Congado, tanto no seu estado verbal como
no não verbal, tendo em vista que a música nessa manifestação se utiliza
de letras, sons, ritmos, gestos e danças. Essa junção constitui o código
musical congadeiro, utilizado para transmitir suas mensagens e os seus
significados. A música dos grupos de Congado
tem fundamentalmente uma função religiosa, como citado anteriormente.
Ela é o principal veículo de ligação entre o homem e o divino. É através
da música e das mensagens que ela transmite que se estabelece a relação
dos congadeiros com os santos dos quais eles são devotos (Queiroz, 2003).
No entanto, a performance musical tem, também, outras funções para a
vida dos congadeiros, servindo como um meio de comunicação, não só com
o mundo invisível – religioso –, mas também com todo o contexto social
do qual fazem parte. Com efeito, tendo como base
estas afirmações, não há dúvida de que a música no ritual do Congado
tem a função de comunicar. Acreditamos, porém, que a grande questão
está relacionada ao que, e como, ela comunica. É importante ter consciência
que o que é comunicado é interpretado e subtendido por membros da cultura
que, contextualmente, podem não compartilhar de todos os significados
veiculados na música do Congado. Concordamos assim com Orlandi (2002),
em sua convicção de que “não podemos não estar sujeitos à linguagem,
e conseqüentemente, a seus equívocos, sua opacidade [...]. Não temos
como não interpretar” (Orlandi, 2002: 9). Não devemos cair na ilusão
de que há, por parte de quem interpreta, qualquer fenômeno comunicacional,
uma consciência de todos os sentidos que estão representados nesse fenômeno.
Essa consciência, segundo o autor, nos permite ser capaz de, pelo menos,
uma relação menos “ingênua” com a linguagem e, conseqüentemente, com
os processos de comunicação de uma cultura. Desse modo, ao afirmar que
a música é o principal meio de comunicação do ritual do Congado de Montes
Claros, podemos estabelecer especificidades de seu processo de comunicação,
mas não nos é possível determinar, com inteira certeza, como isso é
entendido e interpretado pelas pessoas que compartilham da mesma sociedade
desses grupos, mas que não compartilham das mesmas idiossincrasias simbólicas
desse ritual. O que se percebe é que a
música traz, em suas letras, e em sua performance como um todo, melodias,
ritmos e dança, expressões que retratam a história, as crenças, as alegrias
e todo o conjunto de sentimentos e pensamentos rememorados pelos congadeiros.
Nesse sentido, a performance musical faz do ritual um momento de comunicações
múltiplas, onde os participantes desse festejo apresentam à sociedade
em geral suas particularidades, que despertam interesse e curiosidade,
resultando em atribuições de importância aos congadeiros. Importância
essa que não faz parte, socialmente, das suas vidas no cotidiano. Assim,
podemos afirmar que, no processo ritual do Congado, seus participantes
conseguem estabelecer um canal de comunicação com os demais membros
da sociedade, que não lhes é aberto em outros momentos fora do festejo.
Canal esse que se configura como um momento “extraordinário”, único,
vivido somente durante a festa congadeira e a performance ritual/musical.
A música do Congado é constituída por “sons que revelam a paisagem sonora
única que dimensiona os rituais dos Congados temporal e espacialmente”
(Lucas, 2002: 17). Báhagu15, citado
por Lucas (2002), afirma que a música como um meio de comunicação, “não
verbal”, é uma das mais poderosas ferramentas da auto-expressão, da
auto-afirmação e da auto-consciência humana em relação à dimensão cósmica
ou cosmovisão de um grupo social. Assim é a música do Congado de Montes
Claros: um meio de expressão, afirmação e conscientização da cultura
congadeira. Em um estudo específico da
comunidade congadeira dos Arturos, da cidade de Contagem-MG, Gomes e
Pereira (2000) apontam para a ausência de uma correspondência fixa entre
o significado e o significante no mundo congadeiro. Os autores afirmam
que tal fato permite uma abertura no processo de comunicação, pela possibilidade
de leituras diferentes. Assim, reafirmam a nossa idéia de que, no processo
de comunicação no Congado, onde a música é o veículo condutor, nem tudo
que é comunicado é, de fato, interpretado “adequadamente” pelos demais
membros da sociedade. “As múltiplas conotações – que se constroem ao
longo do tempo – fazem da linguagem religiosa dos Arturos um verdadeiro
rosário de mistérios, onde cada conta representa um fato vivo” (Gomes
e Pereira, 2000: 33). De um modo geral, podemos
afirmar que a religiosidade, a fé, a brincadeira, a aprendizagem, a
expressão e a afirmação social, como todos os demais fatores e seus
significados estabelecidos no contexto congadeiro, são rememorados,
expressados e transmitidos através da performance musical. Performance
que dá sentido e forma ao ritual do Congado, que, durante os seus festejos,
sai e se apresenta pelas ruas centrais da cidade, mostrando-se e chamando
a atenção, naquele instante, dos demais membros da comunidade de Montes
Claros. Essa performance, vista apenas em uma época do ano por grande
parte da sociedade, significa, na verdade, para os congadeiros, algo
inexplicável, que é vivido, experimentado e aprendido pela experiência
de brincar, incorporar e fazer a música do Congado. Conclusão Ao analisar as relações entre
cultura e música – com enfoque mais especifico nos processos de comunicação
constituídos no ritual do Congado (Catopês, Marujos e Caboclinhos) de
Montes Claros-MG – podemos concluir que a performance musical, na contemporaneidade,
tem atuado como um veículo de comunicação que traz em si um aglomerado
de significados. Nesse sentido, a performance musical do Congado expressa
todo o caráter religioso, as lutas, as imposições culturais, as tristezas
e alegrias que um povo viveu no passado, mas que são reatualizados periodicamente,
por pessoas que encontram, na expressão musical, uma forma de serem
ouvidas, assistidas e valorizadas pela sociedade em geral. A música do Congado, resistindo
ao tempo e aos processos de comunicação da cultura de massa, engendra
um momento único, assumindo uma função específica, que não pode ser
encontrada em outras músicas desprovidas de significados e de códigos
particulares da cultura congadeira. Assim, não se pode analisar
a performance musical do Congado somente do ponto de vista estético,
da estrutura musical. É necessário considerá-la como algo que está além
da “forma” em si mesma, como um veículo que, imbuído de muitas funções,
tem essencialmente a função de comunicar. Comunicar o que é sentido,
o que é respeitado, o que é devotado e o que é valorizado pelos seus
comunicadores, os congadeiros. Esse processo de comunicações distintas encontra no ritual do Congado vida
e forma, que projeta em toda sociedade de Montes Claros os costumes,
as crenças, os mitos e as ações de homens que, com dignidade, celebram
o que acreditam e gostam, demonstrando, assim, que ocupam um espaço
significativo no seu meio social, e que, durante o processo ritual do
Congado, seus cantos e instrumentos lhes dão voz ativa frente à sociedade
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Doutorando em Etnomusicologia pela UFBA e Mestre em Educação Musical
pelo Conservatório Brasileiro de Música-RJ. Professor adjunto do Departamento
de Artes da Unimontes; e-mail: luisrq@bol.com.br
1 Os dados utilizados nesse estudo são frutos de uma pesquisa que vem sendo realizada junto a esses grupos acerca de dois anos (2002 e 2003). 2 Terno, palavra que assume distintos significados, é definido em uma das designações de Cascudo (1988, p. 746) como a reunião de três objetos. Segundo Andrade (1989, p. 509-510), terno estaria associado com divertimento popular. 3 “...significant study of music or dance or theater cannot be isolated from its socio-cultural context and scale of values it implies.” 4 Dados fornecidos pelo Sr. Alcides Dias Machado – presidente da Associação dos Foliões de Montes Claros. Segundo outros relatos, existem pelo menos mais dez grupos que não participam da Associação. 5 Godofredo Guedes era baiano, mas radicou-se em Montes ainda muito jovem, tendo construído a maior parte de sua obra nessa cidade. 6
Tambor grave, feito em madeira, medindo cerca de 35 X 7 O tamborim no Congado tem um formato similar ao do chama, porém é menor e, conseqüentemente, mais agudo. 8 [...] every type of cultural performance, including ritual, ceremony, carnival, theatre, and poetry, is explanation of life it self [...]. 9 One of the things that determines the course of history in a musical culture is the method of transmission. 10 ...each culture shapes the learning process to accord with its own ideals and values. 11 Margarete Arroyo, em sua tese de Doutorado, intitulada Representações sociais sobre práticas de ensino e aprendizagem musical: um estudo etnográfico entre congadeiros, professores e estudantes de música, realizou um estudo em dois contextos distintos de ensino e aprendizagem da música: o ritual que envolve a Festa do Congado e o Conservatório de Música, ambos localizados na cidade de Uberlândia-MG. 12 Nossos relatos apresentados aqui têm como base experiências vivenciadas no trabalho de campo, participando ativamente do terno de Catopês de Nossa Senhora do Rosário, comandado pelo mestre João Farias, durante as festas de agosto de 2003. 13 Sempre antes de sair para os desfiles durante as comemorações da festa de agosto, ou para visitas às casas dos festeiros e à sede dos grupos de Congado de Montes Claros, o terno se reúne no local de concentração onde ficam guardados os instrumentos. No caso do terno do mestre João Farias, essa reunião acontece na casa do irmão dele, conhecido por “Tonão”. 14
Ao nos referirmos a meninos, estamos atribuindo um termo utilizado
pelos congadeiros para designar aqueles integrantes com faixa etária
inferior, aproximadamente, aos 16 anos. 15 Gerard Béhague, “Regional and National Trend in Afro-Brasilian Religious Musics: A Case of Cultural Pluralism,” Occasional Paper, competing gods: religious pluralism in Latin America 11 (1992): 10-25. |